Meus parabéns aos que sentem

Deixamos abaixo um texto escrito pelo grande amigo Fabricio Cardoso, jornalista Xavante que hoje reside em São Paulo. Fica como homenagem do Blog Xavante a esse clube chamado Grêmio Esportivo Brasil pelos seus 100 anos  e que tanto nos orgulha.

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Meus parabéns aos que sentem

A data de hoje é um desvio do curso natural do mundo, que parece convergir, meio bovinamente, para sentimentos hegemônicos. Quanto mais gente gosta de uma mesma coisa, mais barato fica empacotá-la para venda. Nesta toada, nove em cada 10 brasileiros declaram-se torcedores de 12 clubes. Uns já arrastam a asa desavergonhadamente para o Barcelona e o Real Madrid. E o país do futebol tem 738 times, segundo a, toc, toc, toc, CBF.
Em condições tão hostis de concentração, este 7 de setembro de 2011 só ocorre por uma teimosia hereditária, perpetrada há cinco gerações numa cidade pobre de grana mas transbordante de lealdade.
Meu Brasil de Pelotas, um avermelhado moço que hoje completa 100 anos, prova como uma paixão artesanal tem força para sobreviver num cenário onde as pessoas buscam alívio não nas pequenas afinidades, mas na esterilidade do gosto das multidões. Apesar da necessidade dos grandes de Porto Alegre de ter público (não confundir com torcida) no interior para sustentar suas aspirações continentais, objetivo já concretizado em muito rincão por aí, cá estamos, convictos nesta utopia. O coração xavante, ingênuo, insiste em se divertir no meio enquanto os outros só enxergam sentido no fim. Se eu pudesse testemunhar o nosso segundo centenário, estaria lá tão ingênuo quanto hoje.

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Habita minha lembrança um sábado de maio de 1998, quando o Cléber, ainda sem o Gaúcho no nome, e o Taílson fizeram o Grêmio tombar dentro do Olímpico. Enquanto o Lazaroni, o Guilherme e o Beto Cachaça eram demitidos, um exultante deslocamento humano rumava de volta a Pelotas. Era início de noite, tipo 20h. Dezenas de ônibus em comboio escoltavam a delegação rubro-negra. Ali naquele posto da Polícia Rodoviária da Vila Princesa, já havia xavantes à beira da BR-116, acenando, num prenúncio da madrugada eterna que viria pela frente.
Quando o ônibus xavante cruzava a Avenida Bento Gonçalves, ali perto do nosso salão de festas, a Boca do Lobo, um formigueiro em vermelho e preto saiu em procissão até a João Pessoa. Era lá, no nosso estádio, que estava reservada a maior surpresa da noite: uma Baixada mais cheia do que no Brapel do século, domingo passado.
Ao divisar as arquibancadas acarpetadas de gente que, a despeito da madrugada fria de outono, havia saído de casa para celebrar o triunfo na capital, nosso então diretor de futebol, Cláudio Montanelli, indagou, com os olhos úmidos:

– O que esperam de nós, estas pessoas?

Montanelli é versado como poucos nesta arte de ser xavante. Fez a pergunta por pura retórica, no auge de uma emoção profunda.
Todo rubro-negro sabe que este amor não precisa ser explicado.
Bastar ser sentido, ao longo dos séculos que virão.

Fabricio Cardoso









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