Paguei, quero vaiar

As vaias provenientes da Torcida Xavante para o time rubro-negro e, em especial, as dirigidas para o goleiro Eduardo Martini, deram o que falar. E isto é bom. Assuntos como este devem ser debatidos a exaustão. É com a discussão, com o confronto de idéias, que se amadurece e se cresce. Sem discussão não há evolução.

 Achei as entrevistas concedidas pelo Rogério Zimmermann e pelo Eduardo Martini à imprensa local muito sensatas. Parabéns aos dois. Só fez aumentar o meu respeito e admiração por eles, que se estenderam do profissional ao pessoal.

 Aproveitando a onda, levanto a questão sobre a vaia ser ou não um direito do torcedor. É comum se ouvir que o torcedor paga ingresso e, portanto, tem direito a se expressar como quiser, desde que de forma pacífica, sem violência, claro. Incluso aí, estão as vaias e xingamentos de ordem pessoal. Este conceito é muito aceito pelos torcedores, dirigentes, imprensa e até pelos próprios atletas. Inclusive, ouvi/li justificativas como esta a respeito das vaias acontecidas no último domingo.

 Fico aqui pensando como seria se um dono de empresa, em decorrência de um mau desempenho, vaiasse um funcionário seu na frente de todos os demais funcionários e dos clientes. Sim, porque da mesma forma, o dono da empresa pagou pelo serviço, logo, teria o direito a vaiá-lo. Ou, quem sabe, alunos vaiando o professor por uma aula mal dada. Pagaram pela aula, então, dê-lhe vaia. Seria uma espécie de paguei, quero vaiar. Forcei a barra? Pode ser, mas não muito. No fundo é o que acontece em um estádio de futebol. Vaia-se um trabalhador em razão de seu mau desempenho, alegando-se de direto por ter pago. Que loucura! Durma-se com um barulho destes.

 Eu nunca, nunca mesmo, vaiei o GEB ou algum dos atletas que nele se apresentam. O motivo é simples, eu entendo que o papel do torcedor em um estádio é torcer. Discordo veementemente dos que dizem que torcedor é cliente. Torcedor não é cliente. Torcedor é parte ativa do espetáculo. Torcedor é ator e, no caso da Torcida Xavante, muitas vezes, o protagonista. A função do torcedor é colocar pressão no time adversário, aí sim com vaias e tudo mais, e incentivar os jogadores do seu time. Torcedor vaiar o seu time é como jogador chutar deliberadamente contra a própria meta. Não é o esperado, não é este o combinado. É gol contra.

 Eu sou do tempo que clássico tinha duas torcidas, cada uma querendo fazer um espetáculo maior e melhor que a outra. Arrepio-me quando o Xavante consegue um escanteio nos minutos finais e que pode ser decisivo. A Torcida Xavante levanta e começa a entoar o “Rubro-negro-ô”, pulando, gritando, enlouquecendo. O Caldeirão ferve. Nunca joguei bola profissionalmente, mas aposto que faz diferença. Certo que faz.

 Existe também um segundo motivo para eu não vaiar, ainda mais fácil de entender e menos polêmico: não funciona. Ninguém melhora o desempenho sob vaia. Na administração, no que se refere a gerenciamento de pessoas, existe uma forma de agir, simples e que vale ouro: elogia-se em público, critica-se no privado. É óbvio que quando um jogador faz uma jogada ruim ou perde um lance, ele sabe que errou. E não há atleta, em qualquer esporte, que não seja competitivo. A competição é intrínseca ao esporte, já que alguém irá perder e alguém irá vencer. E adivinha? Sim, ninguém quer perder. E, sendo assim, certamente o próprio atleta se cobra quando erra. Agora, qual a forma de melhor ajudar este atleta a se recuperar do erro, vaiando ou apoiando e incentivando? Também acho.

 Abs.


Ivan Schuster
Onda Xavante

 









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