Xavante eleva cancha do Cabofriense ao padrão Fifa | Fabrício Cardoso

Agora além das contribuições dos nossos parceiros Ivan Schuster e Vinícius Sinott, teremos o prazer de apreciar os textos do jornalista Fabrício Cardoso. Editor-executivo do Diário de São Paulo e, obviamente, torcedor Xavante, Fabrício esteve no último sábado em Cabo Frio acompanhando o G.E.Brasil e nos passa o seu relato da viagem. Seja bem-vindo Fabrício.



Xavante eleva cancha do Cabofriense ao padrão Fifa

O relógio mais próximo da Marginal Tietê assinalava 4h37 da manhã do sábado, 13 de setembro de 2014. O aplicativo do celular, cujo nome omitirei para evitar publicidade gratuita junto a uma torcida do tamanho da nossa, previa oito horas para vencer os 580 quilômetros até Cabo Frio. Nestes quase 41 anos como xavante, jamais viajara com o time confortavelmente classificado, sobrando no campeonato. O asfalto sempre simbolizou uma marcha para peleias capazes de nos ferir de morte. Enquanto mirava a Via Dutra desaparecendo no retrovisor, experimentava uma paz incompatível com o desassossego que, há 103 anos, este clube provoca nas almas que cativa.

Bueno, desnecessário dizer, foi uma sensação fugaz. Não há registro de alguém que, tendo seguido o Xavante Brasil afora, tenha voltado indiferente, sem testemunhar um momento histórico. E o que vimos, eu, minha mina e meus dois xavantinhos, não foi pouca coisa. Ok, perdemos com um gol do vento que soprava, com a fúria de um minuano, na direção da Praia do Forte. Mas meu relato passa ao largo da crônica desta derrota. Falarei da noite em que o Brasil de Pelotas elevou a cancha do Cabofriense ao padrão Fifa.

Com o painel do carro soterrado pelos recibos de pedágio, rompi as ruas de Cabo Frio logo depois do meio-dia. O aplicativo, aquele inominado, estava certo. Só encontrei vaga numa rua perpendicular à da Pousada, e o que vi ao descer no carro me soou de extremo mau agouro. Havia uma loja de skate, com fachada amarela, chamada Toca do Lobo. Na parede, um grafite exibia um sujeito fazendo uma manobra onde se lia “LOBÃO”, assim, com letra maiúscula, no shape. Acho até que perdemos a partida pela triste contingência de eu não ter um carro com detalhes em madeira, para bater três vezes. Nos estropiamos porque eu não tenho um Jaguar, em resumo.

Mas nem todos xavantes alistados para a invasão de Cabo Frio padecem limitações financeiras. Pelo menos uma centena deles se enfiaram em aviões e ônibus fretados desde Pelotas, para, depois da partida, desfrutar de mais três noites nababescas em Copacabana. Quanto ganham estes caras, meudeus? Pois foi assim, pela renda per capita privilegiada, que começamos a edificar o padrão Fifa no Estádio Correão.

O Jardim Caiçara, onde fica a casa que a prefeitura cede ao Cabofriense, é meio escuro. O vazio nas noites de sábados indica que os habitantes cultivam o sono precoce. Mas naquele dia 13, havia um burburinho incomum pelos pés sujos do bairro. Xavantes se apinhavam nos balcões para aplacar a sede, pontencializada pelas três horas de viagem de bico seco, desde o Rio de Janeiro.

Foi um deles quem me apontou a bilheteria, onde os ingressos eram vendidos a inacreditáveis R$ 10. Desde 1998, naquela vez que matamos o Grêmio no Olímpico, não via o Xavante pagando tão pouco. Há aí, no preço, mais um elemento do padrão-Fifa agora instalado em Cabo Frio. Nosso adversário baixou o tíquete para atrair a torcida local, que deu de ombros. Sobrou para nós, xavantes, nos lambuzarmos na promoção. Na Fifa também é assim: os ingressos que eles dão de cortesia ou subsidiados sempre cai nas mãos dos outros.

Nosso acesso ao estádio se dava por uma rua lateral estreitíssima. Fizemos nossa romaria sem que houvesse um policial militar por perto. Na porta do estádio, um caboclo de bigode, solitário, se espantou ao ver meu moleque de nove anos estender o ingresso.

– Comprou ingresso para uma criança? Para quê, homem?! – disse, carregando nos anasalamentos do sotaque carioca.

Fábio Dutra, meu companheiro da Xasampa, chegou uns minutos depois, surpreso com a facilidade com que introduziu nossa faixa no estádio. Não houve revista. Seria possível traficar um novilho assado em fogo de chão ali para dentro, sem que o senhor do bigode se desse ao trabalho de investigar. Obviamente, o Fábio não foi o único a se dar conta deste acesso algo permissivo na porta do estádio.

Em instantes, passavam de mão em mão, com a regularidade de um mate, copos de uísque e vodka. Lá pelos 20 minutos do primeiro tempo, quando os caras já nos venciam, vi um xavante afogando a dor num latão de Skol. Na internet, mais tarde, veio a explicação.

– Podíamos sair quando bem entendêssemos e ir ao bar da frente comprar e voltar com qualquer tipo de bebida, entrar com lata na mão, cerveja, garrafa de cachaça, caipirinha, refri de dois litros, bolinho de bacalhau, pastel. Fomos muito bem recebidos – revelou, satisfeito e agradecido.

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Xavante em campo e gelada na arquibancada. Padrão Baixada.

Àquela altura, nossa torcida, dominada por aquilo que o PT define como “elite branca”, comia e bebia com liberdade e fartura, refestalada como num camarote de Copa do Mundo. A cancha do Cabofriense estava enfim elevada ao padrão Fifa, o que, aliás, não se vê muito por lá.
Rodei bastante pela cidade, até demais. Havia buracos, bocas de lobo com cheiro nauseabundo de esgoto, escolas públicas rogando por uma reforma e tal.

Cabo Frio tem, desde sábado, uma dívida de gratidão com o Xavante.

Nós apresentamos a eles o padrão-Fifa.









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