Com a força do povão | Ivan Schuster

Quem foi ao Bento Mendes de Freitas no sábado pode testemunhar e sentir na pele e na alma um dos maiores espetáculos já acontecido dentro do Caldeirão. Não lembro de outra ocasião em que a Torcida Xavante tenha cantado seus cânticos de guerra com tanta força e emoção. Foi de arrepiar. Time e Torcida, um único esquadrão.

O time em campo fez uma apresentação sanguínea. É certo que durante boa parte do primeiro tempo o time campeão do Paraná nos colocou na roda. Tocavam a bola de um lado para o outro e não conseguíamos acertar a marcação no meio de campo. Como também é fato que eles tocaram a bola, mas não obtiveram chances claras de gol. Não lembro do Martini passando muito trabalho ou de bolas passando com perigo.

A nossa defesa é muito segura. Para furá-la tem que suar muito. Não é só chegar e ir entrando. Tem que fazer por merecer. Já disse em outras ocasiões e repito, sou fã do Cirilo. Não apenas nos garante lá atrás, como foi dele gols importantes e em momentos decisivos nesta nossa caminhada. Cirilo é segurança e decisão. Não bastasse tudo isto, ainda é cria da casa, é Xavante de nascença.

Ao final da apresentação ouvi o treinador, ou algum dirigente, não sei bem, lamentando que fizemos três gols de bola parada. Eu acho muita graça. Se a bola estive parada, não entrava. Dãããã. No segundo gol, por exemplo, ela se mexia e com uma velocidade muito grande. Tanta que o goleiro nem a viu passar. Caiu de susto. Futebol é jogo coletivo, tem jogadas tocando bola e jogadas iniciadas com bola parada. Se não estou enganado, o forte das jogadas do Atlético de Madrid na temporada passada, eram as jogadas iniciadas com bola parada. E foram apenas os campeões do Espanhol e vice-campeões da Champions League. Vai ver que é uma estratégia ruim. Bom mesmo é tocar a bola de um lado para o outro sem conclusão.

Antes de encerrar este texto quero falar sobre algo importante noticiado neste final de semana no site Trivela (http://trivela.uol.com.br/torcida-liverpool-ergueu-voz-para-dizer-que-estadio-de-futebol-nao-e-teatro/ ). A torcida do Liverpool mostrou faixas em protesto ao rumo que está sendo dado aos jogos de futebol. São contra transformarem os estádios em teatros e os torcedores em clientes.

Ingressos caros, torcedores sentados, palmas ao invés de cânticos, partidas frias. O futebol está perdendo o que tem de mais bonito, a emoção. Estão fazendo do futebol um produto midiático, tirando-lhe a essência, a paixão dos torcedores. Estão tirando o povo de dentro dos estádios.

O futebol está sendo industrializado, virando um produto processado, esterilizado, embalado a vácuo e congelado a -37oC. As partidas continuam plasticamente bonitas, bem jogadas, mas o espetáculo perdeu a vibração. Poucos são os clubes ingleses que possuem uma torcida que possa fazer a diferença. E não falo de violência, mas de festa, alegria, pressão os 90min. Embora bem jogado, o futebol inglês chega a dar sono.

No programa Linha de Passe(ESPN), na segunda-feira passada, dia 20/10/2014, quando anunciavam os classificados para a Série C do Campeonato Brasileiro de 2015, o comentarista Mauro Cezar Pereira falou que o GEB é um dos últimos clubes do Brasil que ainda faz futebol à moda antiga. Referiu-se a nós como sendo a resistência ao que se chama de “futebol moderno”. Não falou em tom crítico, mas na forma de um elogio. Não temos dono, ainda vivemos de paixão e orgulho. Somos do povo.

Sei que não é fácil. Para colocar um time em campo nos dias de hoje é preciso muito dinheiro. Dinheiro que, na grande maioria das vezes, não se tem. Mas rogo aos atuais e futuros dirigentes do meu querido Grêmio Esportivo Brasil, mantenham o clube assim, junto ao seu torcedor, ao povão. Montem as estratégias de marketing baseadas nisto. Este é um grande diferencial que temos. Não nos homogenizem, não nos façam uma “commodity”. Não deixem que “empresários” nos tomem como seus, que façam do nosso clube um balcão de negócios e interesses pessoais, como o que vem ocorrendo com a grande maioria dos clubes no Brasil e no mundo.

Não precisamos e nem queremos poltronas acolchoadas, camarotes com ar-condicionado e muito menos serviços “à la carte”. Só o que precisamos é de um lugar para torcer, em pé mesmo, e um time guerreiro e combativo dentro de campo. Quem foi ao Caldeirão e participou do espetáculo no sábado passado sabe do que estou falando. Não há dinheiro que monte aquele luxuoso espetáculo. Não precisou de texto e nem ensaio prévio, pois foi feito com o coração e a alma. Ambos rubro-negros.

Abs.


Ivan Schuster
Onda Xavante

 









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