Quando a corneta desafina | Fabrício Cardoso

A paternidade é potencialmente complexa porque nem as melhores frases da língua portuguesa substituem o exemplo. Podemos, num segundo de vacilo, jogar no ralo horas e horas de pregação moralista. Não me considero um pai ordinário, tenho meus momentos de brilho. Porém, dias atrás, com a mente perturbada de um amor confuso, como são os verdadeiros amores, aniquilei meus discursos com um péssimo exemplo.

Preocupado com as maldades cometidas pelas crianças quase por esporte, o tal do bullying, oriento exaustivamente meus meninos: uma brincadeira só tem graça quando os todos envolvidos acham graça. Se apenas um ri, algo está torto. No meu caso, consequi um prodígio. Ofendi gente decente sem que viv’alma, nem eu, esboçasse um sorriso. Fiz uma piada que, do emissor ao receptor, passou em branco. Foi uma unanimidade furungando a dor.

Foi mais ou menos assim: alguém do nosso grupo do Xavante no Feicebúqui noticiou que, depois da interdição desencadeada pelo esfarelamento da arquibancada no jogo contra o Flamengo, não caberia mais remendos. A direção só iria adiante se fosse para encampar uma reforma completa da Baixada. Trata-se de uma atitude por demais corajosa, que deveria encher o torcedor do orgulho. Mas, de forma que admito mesquinha, estranhei que o porta-voz dessa boa-nova fosse o André Araújo.

O André era o presidente do clube quando, sob acusação oficial de bagunça na inscrição de jogadores, fomos rebaixados em 2011. Estive naquele estádio em ruínas do Santo André, explodi em contentamento com nossa vitória por 3 a 2, e me senti um enorme babaca quando, graças àquele jogo épico, fomos rebaixados por um erro burocrático – juridicamente falando. Há fortes indícios que fomos preteridos por questões de ordem política, embora eu lamente que um clube sem torcedores de uma cidade suburbana possa nos sufocar. Mas quem disse que o amor é a moeda mais eloquente deste mundo sujo da CBF?

Numa reação quase instintiva, a exemplo de quem enfia o dedo na tomada, escrevi:

– Se o André é o responsável pela reforma do estádio, chama o estagiário para conferir a documentação. Caso contrário, o estádio cai, como o time, em 2011.

Agora abro uma enquente: houve graça? Pode até que, considerando alívio de dores passadas, a manifestação tenha efeito terapêutico. O Thiago Perceu, nosso torcedor infiltrado nos corredores do poder do Bento Freitas, fez o papel de polícia.

– Fabrício, você fez o comentário mais canalha do post.

Porra, convenhamos, a acusação de canalha, ainda que este seja o adjetivo mais adequado para a situação, não é a tarefa mais digerível. Tentei reagir, atribuindo minha canalhice ao excesso de amor, mas o Perceu me desarmou.

– Na hora de escrever “textos bonitos”, ninguém pensa em quem põe o patrimônio pessoal para garantir que o time entre em campo.

***

Dias atrás, recomendei, com os olhos nublados de lágrimas, um texto do Douglas Ceconello, do blog Meia Encarnada. Ao inventariar nossa paixão, Ceconello disse que o Brasil é o único clube do mundo onde, quando aparecemos com um saco de cimento para doação, a direção nos recebe com um abraço. É isto que nos significa como família: a gratidão pelo pertencimento vem antes de qualquer coisa.

Por isto aceito o puxão de orelha do Perceu, corroído pelo silêncio dele diante das minhas mensagens de arrependimento. O André talvez tenha coisas muito mais relevantes a se preocupar, como, por exemplo, garantir que o Xavante entre em campo. Que os dois, se for o caso, me perdoem até o Maracanã. Sou apenas mais um corneteiro desafinado nesta torcida reconhecida pela excelência nos instrumentos de sopro.

Só gostaria de potencializar, com meu exemplo ruim, um pedido para maneirarmos no azedume. O Brasil de Pelotas ainda não é um clube aberto, a quantidade de sócios, a folha de pagamento, tudo é objeto de especulação. Também não sou ingênuo a ponto de achar que tomos se amam por lá: qualquer aglomeração com mais de duas pessoas está sujeita às idiossincrasias da política.

Mas, o dia que aparecermos com um saco de cimento no estádio e ninguém vier nos dar um abraço, seremos um clube como qualquer outro.









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