Ganho até quando o Xavante empata | Fabrício Cardoso

– Estação Armênia, desembarque pelo lado direito do trem. Plim.

A voz feminina do sistema de som do metrô de São Paulo despertou-me súbita vontade de correr ao banheiro, naquela reação fisiológica típica de quem, de repente, se descobre autor de uma besteira. A Estação Armênia fica em direção ao norte, para os lados do falecido Carandiru, e o aeroporto de Congonhas, onde eu deveria estar em no máximo 30 minutos, refestela-se entre os prédios da Zona Sul de São Paulo.

Embarquei no vagão errado porque o Xavante acabara de empatar em casa com os polenteiros, cujas mãos ardiam queimadas pela lanterna há tanto tempo empunhada. Não era jogo para empate. Já havia até computado os três pontos na alma, como faço a cada Brapel. Portanto, precisava exorcizar as dores deste imprevisto.

Recorri ao uatizápi, dedilhando com fúria para os bruxos da Xasampa, todos também destroçados emocionalmente com o resultado. Absolutamente, não consigo, como os co-irmãos e tantos outras torcidas genéricas de boiada, imitar argentino. Como ficar de costas para o campo, pulando e cantando sob compasso primitivo, fingindo que não sentem nada? O Brasil de Pelotas é importante demais para mim. Não consigo negar sofrimentos.

Bueno, eu dedilhava no uatizápi. Esta tarefa terapêutica me impediu de verificar com a atenção necessária o sentido do metrô. Daí a cagada, só percebida com a voz lasciva da locutora do metrô.

Irrompi pela plataforma e, bufando, disparei estação afora, disposto a neutralizar a segunda maldade que o clube me impunha naquela noite. Numa sorte imerecida, flagrei um táxi parado no semáforo em frente à estação.

– Estás livre? – perguntei por retórica, já arremessando a mala no banco traseiro.

Resumi brevemente meu vacilo antes de externar ao taxista a urgência, que roçava o limite do impraticável, mesmo num domingo à noite.

– Acho que dá – tranquilizou-me.

Não foi a única paz que ele me despertaria pelos próximos 13 quilômetros, percorridos com serenidade, sem qualquer agressão às leis de trânsito vigentes, apesar da aflição do passageiro.

Não sou de me alongar em conversas com taxistas, porque me parecem repetitivas. Depois das considerações sobre o clima, a maioria deles reproduz o discurso do Feicebúqui de meus amigos que batem panela em sacada, quando não desbancam para uma religiosidade mais cosmética do que sincera. Mas este cara falava com a mesma mansidão do que dirigia.

– Tu tens filhos? – indagou, agora percebo, como pretexto para introduzir o assunto que lhe dá sentido à vida.

– Tenho dois. E tu?

Então, com um orgulho genuíno e por isto mesmo comovente, o taxista começou a discorrer sobre a família. Tem 39 anos e cinco filhos. O primogênito, hoje com 22, veio ao mundo por um descuido juvenil que ele considera a maior bênção da existência. Não apenas pelo filho, mas pela oportunidade de estabelecer um laço consistente com uma mulher, nas palavras dele, “perfeita para a vida que eu sonhava”.

Houve um encontro de sonhos, deduzo, pois vieram mais quatro filhos: de 20, 16, 12 e seis anos. Aos domingos, pega o táxi só quando o sol se põe, porque nada lhe dá tanto prazer quando uma tarde ao lado dos seis, desfrutada lentamente depois do compartilhamento de uma mesa farta. Quando a coincidência de uma corrida lhe conduz para perto de casa, passa para comer uma fatia de bolo com a caçula, curioso sobre as novidades da escola.

– Ano que vem faço bodas de prata. Como não me considerar um homem de sucesso?

Não respondi, mas a pergunta me desassossegou. O sujeito transporta gente dita bem-sucedida, sempre transtornada pela pressa na cidade mais rica do país. Talvez tenha algo a nos ensinar a respeito de metas. O desfrute de 25 anos de um amor tranquilo com sabor de fruta mordida, para ele, soa mais excitante do que o melhor Ebitda, o melhor Ibovespa, o melhor balanço.

Não consigo discordar do taxista, mas saí daquele carro com uma certeza: até quando empata, o Xavante me faz ganhar.

É infinita a capacidade deste time de nos aproximar de gente legal. Em resumo, ser xavante é uma bênção tão grande quanto encontrar um amor digno de ser vivido 25, 50, 70 anos. Se o taxista fosse rubro-negro, certamente concordaria comigo.

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