Devagar e sempre | Ivan H. Schuster

Há muito tempo defendo a tese de que o co-irmão – aquele que sonha com títulos e coloca estrela na camiseta – não é nosso adversário. Para mim os nossos grandes adversários eram os Polenta, ambos. Primeiro, de forma bem direta, o Caxias e depois o Juventude. A meu ver, os times da serra vinham sendo, há mais de uma década, os grandes protagonistas do futebol gaúcho. Pelo menos, enquanto havia quem lhes pagasse as contas. O co-irmão, mesmo com sombrinhas e balões, nunca conseguiu nada de destaque nestes últimos 15 anos. Bem, tampouco conseguiram algo antes disto. Foram notícia quando perderam de virada para nós no campeonato citadino de 2004 – sendo que estávamos com nove atletas em campo, contra onze deles, desde os 20′ do primeiro tempo – e quando foram rebaixados para a segundona do Gaúcho sem ganhar uma única partida. Outras notícias, só quando os dirigentes apanhavam de seus próprios torcedores e nada faziam a respeito.

O Juventude, graças a um acordo feito nos anos 90 com a Parmalat, então poderosa empresa italiana, aceitou ficar no papel de barriga de aluguel do Palmeiras. Em retorno, obteve condições de participar, por mais de 10 anos, da primeira divisão do Campeonato Brasileiro. Há quem ache isto um bom negócio. Eu não. Mesmo depois do acordo terminado, talvez pela força inercial, ainda conseguiu seguir mais algum tempo entre os grandes, até que o dinheiro, definitivamente, acabou. Sobrou apenas a soberba. Até hoje acham-se grandes e juram que a dupla gre-nal lhes tem por adversário. Alucinam. Não sei quantas gerações serão necessárias para entenderem e aceitarem o seu real tamanho e importância. Talvez não cheguem lá.

O Caxias, endividado até o pescoço, as vésperas de fechar e ter o seu estádio leiloado, lá por 2007, arrendou o clube inteiro para um grupo empresarial da região, em um contrato com previsão de quinze anos de duração. Ainda recordo das palavras do treinador Argel, quando iniciava o trabalho na equipe grená, maravilhado com a pujança do clube, citando os inúmeros carros importados no estacionamento. A farra não durou muito mais que 5 anos. O contrato foi desfeito em 2012, depois de um investimento de mais de R$ 20 milhões, segundo o divulgado pelo próprio empresário. Coincidência ou não, o grupo empresarial encontra-se hoje em recuperação judicial e enfrenta processos trabalhistas junto ao TRT. Claro que houve reflexo. Desde o final deste contrato de arrendamento, a turma da Solange Grená vêm observando o time e o clube em franca decadência, ano após ano, culminando agora em 2015, com um duplo rebaixamento e a vergonha de ter disputado uma competição inteira sem ganhar uma única partida. Como sabemos, não é exclusividade, mas é para poucos. Os bem ruins.

O GEB, a partir da segunda metade da primeira década deste novo milênio, parecia que iria engrenar. Mesmo com as inúmeras dificuldades de sempre, sem dinheiro, com muita improvisação e amadorismo, obteve o acesso para a primeira divisão do Campeonato Gaúcho e, por duas vezes, esteve perto de conquistar o acesso para a Série B do Campeonato Brasileiro. Aí veio o trágico e triste acidente, que nos custou em termos futebolísticos um atraso de pelo menos cinco anos. Sofremos muito.

Nunca tivemos dinheiro ou qualquer poderoso ao nosso lado. O que sempre tivemos foi uma Torcida numerosa e fiel. Nossa força sempre esteve na alma do povo rubro-negro. Não somos poucos com muito, mas muitos com poucos. A nossa força, coragem, persistência e, acima de tudo, a paixão nos tem feito de exemplo para muitos. Não temo em afirmar que somos o clube Gaúcho com mais adeptos e simpatizantes. Isto ficou muito nítido agora, quando desta apresentação lá em Fortaleza. Unimos o Rio Grande ao som dos treme-terras da Garra Xavante. Poucos foram os que não se emocionaram e se empolgaram com a causa Xavante. Afinal, não somos apenas “A Maior e Mais Fiel Torcida do Interior do RS”, somos uma torcida que tem um time.

O que nos faltava era convergir toda esta energia para um único ponto, dar ordem ao caos. Muito se ouvia que um clube com uma torcida como a Torcida Xavante, obrigatoriamente, teria que ser maior, participar de competições mais importantes e parar de habitar o submundo esportivo. E o milagre aconteceu. Com muito esforço, trabalho e coragem, hoje somos a terceira força futebolística do RS. Inquestionável. O lugar é nosso de fato e de direito. Que chore e esperneie quem não gostar. Agradeço do fundo do meu coração a todos que participaram deste esforço. O Xavante somos todos nós e terá o tamanho que quisermos.

Agora, passado o susto e a euforia inicial, resta-nos respirar fundo, olhar a nossa trajetória, lembrar das nossas origens, das nossas aflições e angústias faz pouco sentidas. Humildade e pés no chão é preciso. Que não nos iludamos com o recente sucesso. Jacaré que cochila, vira bolsa de madame. Ainda temos um longo caminho a percorrer, que sigamos firmes, devagar e sempre, mas sem perder a nossa essência de ser um clube feito por Xavantes e para os Xavantes. O importante não é o corpo, mas a alma.

É bom ser Xavante!

Abs.

Em tempo: ao concluir este texto, recebi o e-mail do GEB com o projeto do novo Bento Freitas. É de arrepiar os pelinhos da bunda. Rubro-negro vem aí!









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