Mil palavras | Ivan H. Schuster

A primeira vez fiquei sabendo, na manhã de domingo, pelo Twitter. Logo depois, vieram os e-mails, mensagens no Whatsapp e publicações em blogs. Por fim, a comprovação no jornal impresso. Confesso que fiquei chocado, com um sentimento entre revolta e indignação. Não, não acredito que publicar uma foto contendo um torcedor do Pelotas imitando um macaco, em um texto alusivo ao seu quadro social, tenha sido um mero descuido. Menos ainda ingenuidade ou brincadeira. E foi exatamente isto que fez o Diário Popular em matéria impressa na edição deste domingo, 3 de janeiro de 2016. Publicaram uma imagem de um torcedor do Pelotas, em cima da tela, com uma imagem da torcida áureo-cerúlea ao fundo, imitando um macaco. Como qualquer imbecil é conhecedor, uma imagem vale mais do que mil palavras.

Sabemos bem que dizer que o brasileiro não é racista é, no mínimo, falta de conhecimento sobre a história brasileira. Em Pelotas mesmo, há inúmeros relatos sobre a época das charqueadas, quando teria havido uma população negra duas vezes, ou mais, superior a população branca. Todos escravos, tratados a chicotada e (sobre)vivendo em condições que deixaria até o Capeta envergonhado. E isto não faz tanto tempo assim. Imaginar que todo este sentimento escravagista – onde, além do interesse financeiro, há um forte componente de ódio embutido – tenha simplesmente desaparecido no ar, é um exercício que fere a inteligência e o bom senso.

Mas, estamos no século XXI. Nos últimos cem anos fez-se descobertas científicas muito maiores que em todos os 40, 50 mil anos da existência conhecida da humanidade. Entre estas descobertas, a comprovação do que era evidente, a cor da pele não define nada além da cor da pele. Assim, por uma questão de inteligência, humanidade, justiça ou, para os que acreditam, simplesmente como uma forma de se desculpar perante Deus, muitos países deixaram claro em suas leis que uma pessoa não pode ser discriminada por sua cor de pele. Mais, trabalha-se para uma recuperação social dos descendentes destes escravos, de forma a dar-lhes maiores e melhores condições de inserção na sociedade e ocuparem um espaço, que também é deles por direito, e que por muito tempo lhes foi negado. Felizmente o Brasil é um destes países.

Claro que entre o mundo ideal, racional e justo, e o mundo real há uma diferença significativa. Ainda é muito comum encontrarmos pessoas que não aceitam esta igualdade. Acredito eu, para não perderem um imaginário status de superioridade – Hitler também estipulava que a raça ariana era superior e passou vergonha em uma Olimpíada – ou simplesmente para não terem que admitir que seus antepassados oligárquicos enriqueceram as custas do sofrimento imposto a outros seres humanos. Pessoas iguais a eles, apenas com menores possibilidades de se defenderem. Em resumo, o dinheiro herdado do qual se beneficiam hoje é sujo. Teve origem em atrocidades, violências de todos os tipos e mortes. Podem não aceitar, mas é fato. Está registrado na história.

Também é fato que a imprensa brasileira, e a pelotense não é diferente, bem como toda a mídia em geral, é dominada por poucas famílias oligárquicas, com raríssimas exceções. O que torna este caso ainda mais grave, pois existe um componente histórico que não há como relevar.

Que torcedores de clubes com origens na oligarquia, provocassem os torcedores de clubes provenientes das classes mais baixas – e aqui entende-se a população negra em sua grande maioria – há alguns anos, dá para entender. “É só brincadeira”, dizia-se. O que não dá para aceitar é que isto ainda ocorra nos dias de hoje. Muito menos dá para aceitar, que o jornal de maior circulação da cidade publique uma foto ofensiva destas, sem qualquer vínculo com a matéria. Diversão, brincadeira? Não. Ofensa, baixaria.

Acho que pisaram na bola, e feio. No mínimo, um claro e sincero pedido de desculpas deveria ser publicado. Não, não serve uma notinha na seção de cartas dizendo que foi um mal entendido, que entenderam mal, et cetera e tal. Tem que ser um claro e objetivo pedido de desculpas. Um “ERRAMOS”, enorme, na mesma página e local de onde a foto foi publicada. É o mínimo que se espera. Isto se o Ministério Público não resolver abrir um processo. Mas aí já seria querer demais.

Abs.









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