Tiveram que engolir sem cuspir – Ivan H. Schuster

Ufa! A minha sensação é a mesma de ter atravessado um oceano e conseguido chegar na praia, em terra firme e seca. Exausto, mas aliviado e orgulhoso. E vivo! O plano original era ter feito um cruzeiro, mas o navio naufragou já nos primeiros dias. Felizmente, tínhamos botes salva-vidas, o que nos permitiu prosseguir a viagem. Aí vieram as tempestades, mar revolto e o bote também se foi ao fundo. Tivemos que completar o percurso, primeiramente com bóia e depois a nado. Sofrimento. Bebemos muita água. Mas chegamos ao continente.

O difícil não foi o esforço. Nunca nos faltou determinação, dedicação e comprometimento. Como a travessia estava sendo televisionada – sim meus caros, na TV aberta e fechada ao vivo e a cores para o Brasil e o mundo – havia muita gente acompanhando, Xavantes e não Xavantes de todas as querências. Doeu ver gente nossa, amigos do peito, pessoas que nos acompanham desde sempre, tipo família, desacreditada no nosso sucesso.

Com os secadores estamos acostumados. Chafurdam no lodo fecal desde sempre. Matam moscas e se tem por heróis. Bordam múltiplas estrelas, com se o céu lhes pertencesse. Mas ao fim e ao cabo, sabem que tão cedo não desatolarão e que, ao invés do céu, o ambiente que lhes acolhe é o pântano lamacento nas trevas subterrâneas. Sempre nos invejaram e nos invejarão eternamente. Sonham em ter Torcida, em ser notícia nacional e, até mesmo, andar de avião. Nem que seja para comer o amendoinzinho vagabundo que servem. Se um dia alcançarem tal graça(esperem sentados), provavelmente guardarão o cartão de embarque e mandarão emoldurar para pendurar na parede, para mostrar aos amigos e parentes. Viram? Já andei de avião, dirão. Sorry, periferia. Chora.

Como eu dizia, o que machuca não são os secadores, mas os corneteiros. Sim, os de alma pequena, os de pouca fé. Aqueles que, mesmo depois de todas as conquistas, a qualquer sinal de dificuldade se desesperam, começam a gritar e a ter faniquitos. Chiliquentos. Gente que diz que acredita, quando deviam mesmo é confiar. Narrador, narra. Torcedor, torce. Simples assim.

Ouço que não temos time desde sempre. A cada nova competição o discurso é o mesmo. Falta um 10 habilidoso, o time é velho, só jogamos no chutão(certamente o gol frente ao Passo Fundo ou ao Inter foi de chutão), falta ligação entre o meio campo e o ataque, o RZ está superado(bom deve ser o PP), O Martini é mão de alface (lembram das vaias?), o Cirilo é tosco, e por aí vai … O discurso é o mesmo há mais de 100 anos. Provavelmente, um dia acertarão e irão dizer com o peito estufado “Eu não disse?”. Que rufem os tambores!

O problema, para os secadores e corneteiros, é que chegamos na praia. Cansados, esfarrapados, mas chegamos. Foram três anos seguidos com classificação. É pouco, eu sei. Comemorar isto chega a ser deprimente. Só que na nossa história recente, isto não acontecia. Aliás, não acontecia com nenhum time em toda a região sul do Estado. E estou falando apenas do Costelão. Nem vou mencionar a Séria B do Nacional para não machucar as prendas.

Que venha o Portoalegrense. Estamos preparados, como sempre. Vai rolar a festa. O favoritismo é deles, obviamente. Ainda mais com a definição do Vuaden para juiz. Sim, aquele mesmo que acha que é válido cortar a bola com a mão dentro da área, desde que seja contra o GEB. Mas não estou nem aí. Estou só pela cerveja e alegria. Vou para me divertir. Cantar “rubro-negro vem aí”, “avante com todo o esquadrão” e todas as demais canções deste espetáculo que é uma apresentação Xavante. O Xavante não joga, apresenta-se. Estou de sangue doce.

Mas se facilitarem …

Abs.









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