Deixa o homem nos xingar | Fabrício Cardoso

Um clube de futebol não deveria tolerar a liderança de um treinador emocionalmente frágil. Não dá para aceitar explosões de rancor diante de uma pressãozinha qualquer, ordinária, legitimada por uma partida tecnicamente hedionda, na base do bumba-meu-boi. Acontece que o Brasil não é apenas um clube de futebol. Somos algo parecido com uma família, em cujo seio a paixão fermenta. Onde há paixão, nenhuma polidez dura para sempre. Qualquer outra expectativa beira a ingenuidade ou, o que seria mais triste, a confissão de uma existência carente de paixões sinceras.

Certamente não me foi confortável ver o Rogério Zimmermann meio transtornado, olhar crispado, correndo para o alambrado a desaforar a turma do pavilhão depois da vitória colhida nos acréscimos contra o Tupi. Os caras ali são meio mimados, todo mundo sabe, talvez até desse para engolir os resmungos. Porém, me aquece a alma saber que temos um treinador que se preocupa conosco a ponto de perder a compostura. Trata-se de um homem que trabalha sob intenso sentimento, sem o cinismo reinante no tal do futebol (argh!) moderno. Rogério não bate só cartão na Baixada. Bate também aurículas e ventrículos daquele coração há cinco temporadas emoldurado por nosso distintivo.

Embora tenha faltado o indefectível dedo médio em riste, o chilique do Rogério me lembrou do Fabrício, aquele lateral do Internacional, que, cansado do azedume dos colorados, mandou longe um estádio padrão-Fifa inteiro. Interpretei o arroubo dele como uma demonstração de quem se importa, de quem, depois de tanto tempo junto, depois de tanto perrengue encarado de mãos dadas, exige amor apesar das durezas da vida. Mas o Inter é um clube de futebol, com orçamento de vários zeros, pretensões continentais e tal. Não há espaço para paixões fermentadas. Demitiram o cara no dia seguinte.

Temos diante de nós a chance de mostrar que não somos caretas e covardes como eles. Não nos levamos tão a sério para cobrar cinismo de quem recebe salário para nos defender. Aceitamos até um e outro desaforo nas horas mais nervosas, porque, nas famílias, nos espaços de amor, é assim que a coisa funciona.

Aliás, temos inclusive a chance de perverter Tolstoi. Em Ana Karenina, o escritor russo disse que todas as famílias felizes se parecem, mas cada família infeliz é infeliz à sua maneira.

Sejamos felizes e à nossa maneira.









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