Por favor, fique em casa – Ivan H. Schuster

Frequento o Bento Freitas há muito tempo. Mais tempo do que consigo lembrar com clareza. Lembro das primeiras vezes que fui, provavelmente com 7 ou 8 anos, e que havia um ponteiro direito de nome Vanderlei. Um baixinho de perna grossa que corria muito e era driblador. Esta imagem tenho clara na memória. Geóvio é outro de quem lembro bem, provavelmente por seu porte físico. Meus eternos ídolos.

Em todos estes anos, além de torcer, sempre gostei de olhar os movimentos da Torcida Xavante. Se é algo que gosto de observar é o balanço das torcidas. No final dos anos 70, fui a um Fla-Flu, com Zico em campo e um Maracanã lotado. Pouco vi do jogo. Passei a maior parte do tempo observando a “guerra” entre as torcidas. Vale lembrar que, naquele tempo, em clássicos, os estádios eram divididos meio e meio, metade para cada torcida. Saudades.

Por mais que tenha observado e tentado decifrar os comportamentos dos torcedores durante uma partida de futebol, nunca consegui entender a vaia para o próprio time. Acho uma aberração, um ponto fora da curva, algo totalmente sem propósito. Uma espécie uma auto mutilação, um ato masoquista. Quem, em sã consciência, acredita que, vaiando, conseguirá motivar a equipe? Óbvio que não. Se vaia motivasse alguém a melhorar, professores, executivos de empresas e pais, estariam vaiando seus alunos, funcionários e filhos. Já imaginaram um funcionário, por não atingir as metas, ser colocado no meio do salão ou do pátio da empresa e tomar uma vaia dos acionistas? Ou um adolescente ser vaiado, por todos seus familiares, por não ter conseguido passar no vestibular? Pois é.

Já ouvi muito que a vaia é um direito do torcedor. Não concordo, mas, mesmo isto sendo verdade, é de uma estupidez gigantesca. Não conheço e nunca ouvi falar de uma única pessoa que produza mais e melhor quando sobre pressão, desconfiança e desaprovação de forma expositiva. Imagine-se sendo vaiado por seu professor, chefe ou pai/mãe, em público, por não ter alcançado o resultado esperado. Um de meus poucos e bons gurus disse-me uma vez, alogia-se em público, repreende-se no privado. Creiam, funciona. Motivar é apoiar e não criticar.

As vais ouvidas, neste sábado, durante a apresentação Xavante frente ao Vila Nova/GO, foram muito além da estupidez. Foram injustas, injustificadas e ingratas. Injustas, porque o time vem fazendo boa campanha. Na verdade, uma campanha além da imaginada pelo mais otimistas dos Xavantes. Injustificadas, porque o time vinha fazendo uma boa apresentação. Embora com placar adverso, a equipe Xavante apresentava-se de forma superior ao adversário e construindo boas jogadas, que resultavam em oportunidades. Ingratas, porque este grupo já nos deu alegrias que nenhum outro conseguiu. Pelo menos, não nos últimos 50 anos.

Talvez, aqueles que vaiam, estejam apenas projetando em nossos atletas suas próprias frustrações e derrotas pessoais. Utilizam-se, provavelmente de forma subjetiva e inconsciente, dos tropeços da equipe, para colocarem para fora as decepções consigo mesmos. Talvez sua própria performance na cama na noite anterior. Não sei. Talvez algum psicólogo ou psiquiatra possa entender e explicar melhor estes eventos. Para mim, são corneteiros. Nem mais e nem menos Xavantes, apenas corneteiros. Almas aflitas, angustiadas, fracos. Na verdade, dignos de pena.

Deixaria estes atos passarem em branco, não fosse um detalhe. Tenho plena convicção que estão prejudicando e não contribuindo para uma melhora da nossa performance. A idéia de haver torcida em um estádio é para que o time tenha apoio, que sintam que nas arquibancadas existe uma multidão que estão com eles até o apito final. Haja o que houver somos um só, time e torcida.

Meu amigo e companheiro, se não consegues ir para apoiar, por favor, fique em casa, assista pela TV. Deixe o estádio para os fortes, para quem aguenta o tranco, para os que não se curvam frente as adversidades, para os que confiam, para os que acreditam, para os que sabem torcer.

Ser XAVANTE não é para qualquer um!

Abs.









1 Comentário

    • Roxo

      19/07/2016

      Sugiro ao autor (e a outros que com a opinião dele se identificam) que fiquem na porta do estádio com um enorme carimbo conferindo um “selo de qualidade” ao torcedor que vai ao jogo. Pode ser um carimbo a ser aplicado na testa do indivíduo nos moldes dos carimbos da SUNAB (que certifica carne). Aqueles que tem o carimbo do adestrador de torcida vai para um lado do estádio, quem não tem ou sai ou fica de castigo ajoelhado no milho ouvindo o jogo no radinho.
      Ou quem sabe aquelas placas usadas em programas de auditório antigo onde algum funcionário ficava levantando a mesma, induzindo a platéia a aplaudir ou levantar os bracinhos. No caso, pela pretensão do autor, talvez gostasse que a torcida balançasse também o rabo ou baixasse as estúpidas (adjetivo usado no texto) orelhas de burro.
      Não é por acaso que, cada vez mais, o esporte perde sua principal característica que é a paixão (seja ela para apoiar ou vaiar) para ser tornar um exercício imbecil de “macacos de auditório” (com todo respeito aos símios).

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