Que saudade do Interbairros | Marcelo Barboza

por Marcelo Barboza

Hoje, 17 de outubro de 2016, completamos 1 ano daquele jogo inesquecível na Arena Castelão contra o Fortaleza. Naquela tarde de sábado, todo coração rubro-negro quase parou de bater. Foram momentos de muita angustia, mas principalmente de muito orgulho. Que time. Que campanha. O orgulho de torcer pro Grêmio Esportivo Brasil foi lá nas alturas. Orgulho esse que jamais se apagou e que manteve esse clube vivo até hoje.

E de um ano para cá tivemos alguns sustos no Gauchão, é verdade, mas estamos fazendo uma Série B sensacional. Estamos na reta final do campeonato e o Brasil ainda briga por uma vaga na Série A. Algo que há alguns anos atrás era impensável. E foi nisso que pensei nesse final de semana, de tudo que já passamos e o que nos motiva a amar tanto esse clube. E assim me recordei de muitas coisas muito boas que mantiveram essa chama rubro-negra acesa dentro de mim.

Saí de Pelotas no ano de 2001 em busca de oportunidades profissionais, recém formado na ETFPel, com 20 anos de idade. O Brasil vinha de um ano anterior onde tentou e fracassou no acesso para a Série A do Gauchão e fez uma fraca campanha na Copa João Havelange. Naquele ano, eu morando em Curitiba, tinha pouco acesso a internet e muitas vezes sabia o resultado dos jogos do Brasil quando eu chegava no trabalho no dia seguinte. Era ruim demais viver daquela forma. E aos poucos fui vendo o quanto o G.E.Brasil fazia falta pra mim. Não era somente a falta de sentar nas arquibancadas do Bento Freitas, mas sim de tudo que envolvia um jogo do Brasil. Os primeiros meses em Curitiba foram de muito choro. Era choro com saudade dos familiares, saudade dos amigos e, aos poucos, era cada vez mais evidente a falta que o Brasil fazia em minha vida.

Lembrava naquela época, da epopeia que era sair da Guabiroba, onde praticamente nasci e fui criado, até o Bento Freitas lá pelo final da década de 90. Em dia de jogo, eu e meus amigos nem precisávamos combinar horário para sair para o jogo. Já era certo que uma hora e meia antes da partida todos nós nos encontraríamos em frente ao meu prédio, o bloco 91 da rua Irmão Gabino. E lá íamos eu, Uilson, Dudu, Pablinho e Alexandre rumo à parada de ônibus. Podíamos pegar qualquer ônibus da Turf, descer no centro e ir a pé até à Baixada pela Princesa Isabel. Mas sempre íamos de Interbairros, que na época era uma novidade em Pelotas. Então apontava na ponta da Theodoro Muller o busão da São Jorge, todo judiado. Embarcávamos e já ficávamos pelo fundão, sempre. E ali começava uma jornada santa até o Bento Freitas. Aquela meia hora de viagem parecia não ter fim, não por ser longe, mas pelo prazer que tínhamos em fazer aquilo juntos. Os cobradores já nos conheciam, já eram nossos amigos. O Alexandre começava a cantar pra toda guria que entrava no ônibus, o Dudu tentava passar por baixo da catraca, o Pablinho ia mexendo com todo mundo que passava na rua e o Uilson morria de vergonha disso tudo. As janelas do ônibus iam sempre abertas para xingarmos, se necessário, qualquer um que ousasse vestir uma camisa amarela ou da dupla grenal na rua em dia de jogo do Brasil.

Pessoas até então desconhecidas embarcavam no ônibus e se juntavam a nós e todos virávamos amigos. Pouco falávamos sobre o jogo em si. Escalação, classificação, adversários… não estávamos nem aí para isso. O que nos importava era estarmos juntos e rumo ao Bento Freitas. Na chegada ao Bento Freitas o Alexandre já ia no amigo que trabalhava com ele e era porteiro no estádio. Nós, pelados de grana, fazíamos uma vaquinha e o Alexandre voltava com os ingressos, digamos que a um preço promocional, se é que vocês me entendem. É feio, mas na época eu achava isso justo, visto que não tínhamos grana suficiente para ir a todos os jogos como íamos. Às vezes, quando sobrava um pouco de grana, gastávamos na copa já dentro do estádio. Quem nunca tomou cachaça nos copões plásticos no Bento Freitas, com o sol batendo na cara, não sabe o que é a verdadeira dor de cabeça no dia seguinte.

Tudo isso parecia uma coisa simples, normal aos olhos de qualquer pessoa que gosta de futebol. Mas quando perdi isso, ao me mudar para Curitiba, senti que o meu choro não era apenas de saudade dos amigos e familiares, mas sim da falta que o Brasil me fazia. Eu me tornei muito mais Xavante depois que saí de Pelotas, se é que isso é possível, visto que não existe medição de quem é mais ou menos Xavante. O cidadão é Xavante e ponto. Mas a falta que o Brasil me fazia, me fez dar muito mais valor à instituição Grêmio Esportivo Brasil. Acho que todo mundo que sai de Pelotas passa por isso, ou passa e nem nota. Quando ouço que alguém não vai a um jogo porque ta frio, ta chovendo, ta calor, eu fico enfurecido. Se eles soubessem o tesouro que eles têm ali, no final da Princesa Isabel, não cogitariam faltar a um jogo nunca mais.

E hoje estamos jogando Série B do Campeonato Brasileiro, na briga para subir para a Série A. Recuperamos o respeito que nos tinha sido roubado. Hoje quando se fala em “Brasil de Pelotas”, todos sabem quem é e respeitam o torcida do Brasil. Recuperamos o nosso orgulho.

Hoje posso acompanhar o Brasil pela televisão, em hd, no conforto de minha casa. Tenho o imenso prazer de trabalhar aqui no Blog junto com o Daniel e poder levar informações sobre o Brasil mundo à fora, pois sei a falta que isso nos fez no passado e o quanto isso é importante para os torcedores desgarrados. A internet aproximou o clube da torcida. Seja em Pelotas ou lá na Groenlândia. Temos tudo na mão na hora que quisermos.

Mas cá entre nós, eu trocaria todo esse conforto por uma volta ao passado e poder curtir tudo que já passei pelo Brasil. A cerveja gelada do freezer de casa jamais será igual a cachaça que tomávamos na copa. O conforto do meu sofá jamais será equivalente ao banco rasgado do São Jorge. Que saudade de tudo isso. Que saudade do Interbairros.









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