O coração sente o que os olhos não veem | Fabrício Cardoso

Na Primavera de 1999, o Xavante perdeu o mando de campo. Era um tempo em que cuspir do alambrado ou escalá-lo em caça a alvos de espancamento era coisa para se narrar com orgulho. Deu as caras com o Caxias no falecido estádio Santa Rosa, em Novo Hamburgo. O jogo foi numa terça-feira à tarde, dessas loucuras que só a Federação Gaúcha faz por nós. Eu trabalhava em ali para os lados do Rio dos Sinos e apenas informei ao editor que sairia mais cedo. Como segui empregado, creio que ele percebeu a legitimidade da minha ausência.

Quando cheguei ao estádio, só havia 15 polenteiros de torcida organizada, eu e um taura xavante, morador de Porto Alegre, a quem tapara de abraços um carnaval atrás, o de 1998, ao vê-lo saracoteando pelas ruas de Laguna com a camisa do Xavante. Lá pela metade do segundo tempo, o jogo ia num hediondo zero a zero quando o Cuca, então um técnico de fralda suja, engatinhando lá na Baixada, tira um atacante para meter um volante. Não me contive.

– Cuca, vai tomar no olho do teu c…!

Com a cancha vazia daquele jeito, a frase pouco polida penetrou-lhe os tímpanos com mais clareza do que a água do Sanep. Jamais esquecerei o olhar que o Cuca me lançou da casamata. Naqueles globos oculares em erupção, vi que o cara tinha hemoglobina para ir até onde foi, beijando terço e tudo. Fiquei quietinho até o jogo terminar, feito criança mijada.

A Nêga Veia, coitada, ouve esta história há 17 anos. Meus guris, desde que vieram ao mundo gritando “avante, com todo esquadrão” em vez de chorar. Mas sempre senti, em meio àqueles olhares de enfado lançados para histórias que se repetem à exaustão, uma certa desconfiança, como se eu tivesse inserido liberdades poéticas na narrativa. O desaparecimento da única testemunha do meu berro não ajudou a dar autenticidade às minhas memórias.

No verão de 2017, mais precisamente nesta semana, o Xavante pegou o Zequinha num amistoso. Como estamos, segundo o Gúgou, a 2,3 mil quilômetros da Baixada, me ouricei como tiete do Sérgio Moro em Whatsapp quando soube que a partida coincidiria com meu período de férias em Porto Alegre. Uns dois dias antes, começou a correr o boato de que o Passo D’Areia não estava liberado pelos Bombeiros e a peleia se daria a portas fechadas, longe da retina da única torcida verdadeiramente interessada nela.
Houve um princípio de pânico entre nós, amenizado pelo bruxo Aroldo dos Anjos, professor de alemão, a quem conheci em São Paulo e hoje introduz porto-alegrenses nas asperezas do idioma de Goethe. O Aroldo acenou com a possibilidade de alugarmos a cancha de sete que fica atrás de uma das goleiras dos caras e, dali, pisando em gramado sintético como nossos meninos, contemplaríamos uma das paixões de nossas vidas.

Movido por esta esperança, catei a Nêga Veia e os guris e percorri toda a Sertório com as cordas vocais em riste. Porém, quando quebramos para a rua que conduz ao Zequinha, já nos espaços comerciais anexados ao estádio, avistei algo de mau agouro. Lobo Chopp era o nome do bar que, por dever quase litúrgico, foi solenemente tangenciado pelos 30 xavantes que para lá haviam convergido. Encontrei todos quase na esquina, em outro boteco.

Experimentamos aquele calor afetivo dos reencontros ocorridos a reboque do Brasil, mas o semblante da turma estava pesado. O inquilino da cancha de sete do Passo D’Areia, para quem o São José terceiriza a exploração do espaço, se disse impedido pela direção do clube de alugar as quadras para aquele fim. Fizemos uma rápida inspeção na vestimenta da nossa torcida, havia muita gente de calção e tênis, mas achamos que estava tarde demais para fingir que jogaríamos futebol. Até porque, ato contínuo ao pontapé inicial cênico, todos correriam para a tela, salivando diante do clube do coração.

Saímos dali cabisbaixos, devastados emocionalmente, caminhando como zumbis ao redor do estádio. Por entre as grandes de uma das bilheterias, era possível ver o Martini apertando as pálpebras na pequena área, fazendo a leitura do jogo que nos era impedido de ver. Lá pelas tantas, divisei um rapaz negro e esguio com nossa camisa 9, um Nena sem coxas coladas, que mais tarde vim a saber ser o Jean Silva. Gosto de atacante que recua até a defesa, sobretudo quando a visão fica limitada à nossa grande área.

Mais uns cem metros adiante, havia frestas num portão de acesso ao estádio. Dava para ver o goleiro deles. É daqueles espevitados, que ficam saltitando irritantemente de um lado a outro, batendo palminhas com as luvas. O Martini me acostumou mal com a frieza, agora tudo nos outros me parece exagero histriônico. Então aproveitei aquele hiato no concreto e ferro para avisá-lo.

– Fica pulando aí. Hoje te aliviaram, mas lá de Pelotas tu não vai escapar, seu m… – disse, corando a Nêga Veia e os guris com este arroubo linguístico ao final do recado. Só tive a vergonha abrandada quando o Rogério disse ter escutado, da casamata, nossas manifestações verbais reverberando pelo estádio violentamente vazio.

O jeito foi ficar ali no bar que não era o Lobo Chopp, ouvindo a Pelotense pelo sinal de 3G do celular e cerzindo aquilo que de mais nobre o Xavante nos dá, que são as amizades. Nem os dois gols dos caras nos desviou da charla. Foi assim que, além de atualizar a prosa com o Aroldo, conheci o Levi Madeira, revi rostos de Brasília, do Maracanã, gente que se dedica a este sacerdócio com energia comovente. Tive a honra de conhecer o Otto, um sujeito nascido e criado em Gravataí, sem parentes e amigos em Pelotas, mas, por destes sentimentos que desafiam a geografia, que a gente critica quando é contra e aceita quando é a favor, se viu enfermo desta paixão que nos une. O Otto, para mim, resume o que todos nós descobrimos aquela tarde: o coração sente o que os olhos não veem.

Ah, falta terminar aquela história do Santa Rosa, contada lá no começo. No boteco, dei de cara com aquele taura que testemunhou comigo o empate covarde sob comando do Cuca. Havíamos esquecido o nome um do outro, nos reapresentamos, mas o que são identidades quando temos experiências em comum? Companheiro de antigos carnavais, o Everton confirmou meu xingamento, seguido de um bode envergonhado. Lavou minha honra, salvou-me a suspeita de mentir por longos anos para as pessoas que mais amo.

E confirmou também algo que sabemos no nosso íntimo: um jogo do Brasil, quando visto ou pelo menos sentido ao lado dos amigos, não acaba jamais.









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