Precisamos evoluir, professor

Por Marcelo Barboza

A noite do dia 29 de março foi para fazer todos os corações Xavantes pararem de bater. Precisando vencer o Passo Fundo fora de casa, o lanterna do campeonato, para eliminar qualquer chance de rebaixamento, o Brasil fez mais uma péssima partida e perdeu pelo placar de 2 a 1. Ao final do jogo em Passo Fundo, a torcida Xavante ficou ligada nas rádios de Erechim pois um gol do Ypiranga contra o Caxias colocaria o Brasil novamente na segunda divisão. A pressão do time de Erechim foi gigante mas o Caxias segurou o empate e manteve o Brasil na divisão principal do campeonato gaúcho. Foi por pouco. Muito pouco.

Mas a derrota maior veio após o jogo. A entrevista coletiva do nosso treinador, Rogério Zimmermann, foi surreal. Totalmente transtornado, o nosso comandante mais uma vez não soube administrar um fracasso. Questionado sobre a péssima campanha do Brasil no campeonato, Rogério desviou o foco dos problemas técnicos e começou com o seu discurso de sempre.

O que precisamos separar é o Rogério Zimmermann treinador do Brasil e o Rogério Zimmermann que concede as entrevistas. O primeiro é um profissional sério, profundo estudioso e que respira futebol. Um dos maiores treinadores da história do Brasil, sem dúvida. O outro, que concede as entrevistas, é um personagem que Rogério criou. Ele mantém um atrito com a imprensa de Pelotas há muito tempo, onde muitas vezes até tem razão, e usa as entrevistas coletivas para tentar zombar da cara deles. Porém Rogério esquece de um detalhe muito importante, que do outro lado do radinho tem um torcedor do Brasil que dá importância para o que ele fala.

As entrevistas coletivas também são de nível muito baixo, concordemos. As perguntas são quase sempre as mesmas e pouco questionam as escolhas e detalhes técnicos da partida. Então Rogério quase sempre mantém o mesmo discurso e se contradiz em vários momentos. Às vezes reclama que os adversários possuem jogadores que já passaram pela Série A e esquece que deixa Teco e Evaldo no banco, dois jogadores que já jogaram Libertadores pelo Grêmio, e que quando jogam correspondem muito bem. Fala da curta pré-temporada como se soubesse disso apenas em janeiro desse ano e não lá no final de 2015 quando conquistou a vaga para a Série B. Rogério teve seu contrato renovado com o Brasil somente no final de dezembro, quando o mercado já era escasso para bons jogadores. Então a solução foi recorrer a empresários e vasculhar o mercado em busca de soluções, pois no Brasil quem define as contratações é o treinador e não um gerente de futebol. E deu no que deu, um quase rebaixamento.

O Brasil nunca teve tantos recursos financeiros entrando em seu caixa. Entre cotas de tv, quadro social e patrocinadores, serão mais de 10 milhões de reais para 2017. Obviamente que folha salarial não ganha jogo e nem título, mas é um princípio para tudo. Tendo mais dinheiro no bolso, é incompreensível pra mim perder o Diogo Oliveira e trazermos o Lenilson. Perdermos o Ramon e acreditarmos que Gustavo Papa, terceiro reserva na Série C de 2015, iria nos levar para as cabeças no Gauchão. Contratamos errado por demora na definição do treinador? Por irmos ao mercado tarde demais? Ou pela simples opção do treinador achar que esse time seria o suficiente para brigar pelo título? Na coletiva após a derrota pro Passo Fundo o nosso comandante disse que ficará com todo esse grupo para a Série B, pois foi ele quem definiu que esse seria o grupo pro Gauchão. E é isso que desgasta a relação dele com a torcida. Ele vai para as coletivas, fala coisas que ele mesmo não concorda, e grande parte da torcida toma tudo isso como verdade. Parece loucura, mas é o que acontece. Proteger os seus jogadores é normal e compreensível, mas o que tem acontecido é diferente disso.

Essa overdose de gratidão tem ultrapassado o bom senso. Somos e seremos eternamente gratos ao grupo de jogadores, direção e comissão técnica que nos tiraram do limbo e nos colocaram nessas condições que teremos no ano de 2017. Por mim colocávamos uma estátua para cada um no entorno do Bento Freitas. Mas chega uma hora que não dá mais pra mantermos essa gratidão dentro do campo. Nem vou citar nomes, para não parecer marcação com um ou outro. Acho eu que o próprio Rogério sabe que jogadores no atual elenco não tinham mais que estar no Brasil. O fato de eu falar isso jamais apagará tudo o que eles fizeram pelo Brasil. Não é ingratidão, é sequência no trabalho. É a evolução.

Quando o Rogério diz que ergueu o Brasil na sua primeira passagem em 2004 e agora, ele está certo. Assim como o Brasil ergueu a carreira dele. Na Cabense, na Ulbra ou no Pelotas, ele jamais chegaria a uma Série B de Brasileiro, a um calendário como temos esse ano e não seria ídolo como é. Ele também deve muito ao Brasil e principalmente à torcida do Brasil. Mas nas coletivas ele diz o que?

“O Brasil estava na segunda divisão em 2003, aí chamaram o RZ e eu vim e subi o Brasil”. Esquece de dizer que em 2004 tínhamos um jogador chamado Cláudio Milar, que fazia gol de tudo que é jeito.

-“Se pegar a história do Brasil, dá mais tempo na segunda divisão do que na primeira”, como se o Brasil não existisse antes da contratação dele. Como se Galego, Osvaldo Barbosa, Teté e outros treinadores, que levaram o Brasil a grandes conquistas, fossem menores que ele. Como eu disse, nas coletivas ele se transforma em um personagem e fala coisas sem sentido e quer que todos aceitem como verdade. E o impressionante é que muitos embarcam nessa barca.

Mas ignoremos o personagem Rogério das entrevistas, vamos esquecer dele. Vamos falar do Rogério treinador de futebol. Sempre montou times competitivos, onde a defesa é o ponto forte. Dessa forma levou o Brasil a dois acessos nacionais e tirou o clube do limbo da divisão de acesso. E é esse o Rogério que queremos ver evoluir. O futebol apresentado no Gauchão desse ano não demonstra essa evolução. Será que Rogério chegou no seu limite técnico? Ou apenas erramos nas contratações e bago pra cima seria o único jeito de tentar jogar com esses jogadores? A Série B vem aí novamente, daqui a pouco mais de um mês. Rogério terá novamente uma grande oportunidade de crescer profissionalmente, mostrar que também está evoluindo com o Brasil e que é um treinador de Série B ou A. Mas para isso é preciso largar esse personagem das entrevistas coletivas e se desgastar com os torcedores à toa e focar no trabalho. Chega de escalar jogador por birra com a torcida ou imprensa. “Fulano é vaiado, então vai jogar”. “Cicrano ta no clube desde 2012, tem que renovar contrato por gratidão”. Não dá mais.

Queremos ver o time do Brasil jogar um bom futebol, apenas isso, assim como lá na Série C de 2015 contra o Juventude no Jaconi e contra o Guarani em Campinas, onde jogávamos contra bons times de igual para igual. Sei que temos grandes limitações como clube ainda e muitos acharão que a cobrança é desproporcional, mas ela é necessária.

Portanto professor, aproveite esse momento impar em sua carreira e siga essa evolução que o clube precisa e a torcida tanto quer. Isso fará bem para todos, inclusive para você. E não nos leve tão a sério. Nós do Blog Xavante somos apenas torcedores de um clube de futebol, não entendemos bolhufas de futebol. Porém carregamos esse clube há muito tempo, antes mesmo do senhor pensar em ser treinador. Iremos ama-lo e odiá-lo em vários momentos, às vezes até mesmo dentro de uma mesma partida. Mas queremos sempre o mesmo que você, o bem do Grêmio Esportivo Brasil.









1 Comentário

    • Roxo

      04/04/2017

      Texto extremamente lúcido de um cara que admiro muito. Sem macaquices de auditório, sem rótulos, sem babaquices. Extremamente necessário porque o Marcelo consegue explicar aqueles que eu desconfio que não “se emburrecem” quando querem, mas que são burros mesmo, qual é o real sentimento em relação ao que vivemos nas campanhas vitoriosas que tivemos sem deixar de pontuar as falhas do passado recente como fazemos.. Se realmente são burros e cegos pela idolatria, talvez venham aqui chamar esse ilustre Xavante que tem um dos maiores acervos de memória do Clube de corneteiro, ingrato e profeta do apocalipse. Valeu, Marcelo, quem precisa de circo pra bater palminha é foca.

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