Das coisas que a gente faz pelo Xavante | Fabrício Cardoso

Tocada a vento, a chuva retumbou na janela a madrugada inteira. Quando tocou o despertador, às 5h da manhã de 2 de novembro de 2015, a sinfonia dos pingos prosseguia. Adoro velar o sono da minha áureo-cerúlea, mas, naquele chuvoso amanhecer, senti algo além de ternura ao admirá-la ali, dormindo.

Era culpa.

Em minutos, ela sairia das quenturas da cama para dirigir pelas ruas escuras e úmidas do Centro de São Paulo, de onde eu tomaria condução para o Aeroporto de Guarulhos. Lá fui deixado, no ponto de ônibus. Ainda aquecido pelo abraço de despedida, a culpa foi virando uma saudade misturada com gratidão. Então redigi no uatizápi, enquanto sacolejava rumo ao meu voo para Goiânia:

– Obrigado por apoiar as minhas loucuras.

Uns segundos depois, soou o apito do celular. Era ela, ufa!, já estava em casa.

– Eu amo o jeito que tu ama o Xavante – respondeu.

Meus olhos ficaram mais úmidos do que as janelas do busão. Aquela compreensão expressa um amor que não tenta anular o outro, mesmo quando este outro flerta com o egoísmo em nome de paixões privadas. Foi especialmente tocante porque não temos ficado juntos nestes últimos amanheceres. Por contingências profissionais temporárias, de junho para cá, tenho desfrutado somente quatro dias por mês da companhia da minha família. Ao decidir embarcar de volta em pleno feriado para ver o Brasil, abri mão de 25% do tempo que tenho com eles. Não é pouca coisa.

Mas, nestas jornadas longe de Pelotas, bastam alguns minutos na companhia de outros xavantes para revermos nossos parâmetros de sacrifício pessoal. Nas arquibancadas do Serra Dourada, onde chegamos duas horas antes do jogo em respeito à nossa integridade física, topei com dois xavantes inspiradores. Tiago Reinherdt e Sandro Amaral são caminhoneiros. Rodam o Brasil levando riquezas. Talvez não tenham a minha sorte de gozar quatro dias por mês na companhia da família deles.

Mesmo assim, quando os cruzamentos da Série C começaram a nos empurrar para o Norte do país, ambos começaram a prospectar carretos no entorno das cidades onde o Brasil iria jogar. Foi assim, prestando serviços na região metropolitana de Fortaleza, que o Tiago testemunhou o Castelanazo.

Tiago Reinherdt e Sandro Amaral no Serra Dourada. Foto: Fabrício Cardoso

Espiritualmente embriagado por nosso triunfo, Sandro aceitou trabalhos na divisa de São Paulo com Minas Gerais, adiando o retorno ao Sul, para ficar a algumas horas de viagem de Goiás. Enfim, faz semanas que, movidos por esta alucinante paixão pelo clube, os tauras não põem o pé em casa. Tudo porque tem gente que os ama que ama o jeito que eles amam o Xavante.

Quando vi o chute do Wender explodir no travessão, no derradeiro pênalti, um formigamento se formou na minha garganta. A vontade de chorar me despertou uma segunda culpa no mesmo dia, porque, convenhamos, depois desde 2015, não temos direito a tristezas. Foi o abraço do Sandro, seguido pelo do Tiago, seguido pelo do Daniel, seguido pelo do Pablo, seguido pelo Narinho, seguido por tantos irmãos, que me devolveu a razão das coisas. Foi uma jornada de cuidado, esta em Goiânia.

Aliás, nem meu pai zelou tanto pela minha segurança num estádio de futebol quanto a Polícia Militar de Goiás. Até afrouxei meus ímpetos comunistas. Os caras nos buscaram na churrascaria nos repoltreávamos num rodízio. E nos escoltaram até o estacionamento do Serra Dourada. Quando saímos dos carros, nos ladearam com a cavalaria até o portão de acesso, garantindo que a reação hostil dos torcedores do Vila, que churrasqueavam às largas no estacionamento do  Serra Dourada, não passasse de coros repetitivos e monótonos questionando a nossa masculinidade.

Na volta, depois que todos eles deixaram o estádio com sorrisos de molar a molar, lá estavam os cavaleiros de novo, à espera destes gaúchos desvairados. Já estávamos meio cansados e a caminhada se deu num silêncio que me permitia ouvir o toque ritmado dos cascos dos cavalos no asfalto. Naquele ritmo, parecido com os pingos da chuva que batiam na minha janela, me dei conta que uma verdade incontestável.

Todos nós fazemos muito pouco diante do tanto que este clube nos dá.









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